O primeiro IM 70.3 do resto de nossas vidas

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Esse sonho não começou em 2016 quando fiz a inscrição para o Ironman 70.3 de Buenos Aires, assim como esta prova, isoladamente, representa mais um importante passo em busca da full distance do Ironman 140.6. Este sonho começou a ser construído em 2013 quando decidi investir no triathlon.

Rememorando fatos e atos, lembro-me da dificuldade em cruzar os 18 metros da piscina da academia, no quase afogamento da primeira prova de triathlon em Caiobá (na então temerária distância de 750m), no primeiro triathlon short do resto de nossas vidas, com o Coach Diego Montecelli.

Lembro-me ainda, da cirurgia na coluna, da recuperação paulatina e na necessária postergação da estreia na distância olímpica de 2015 para 2016. Nervos sempre testados e à flor da pele, como é peculiar para quem tenta se equilibrar entre todos os papéis desempenhados.

Lembro-me da frustração manifesta em razão da impossibilidade de participar na etapa Insano do Heróis do Triathlon no segundo semestre de 2016 – uma etapa intermediária, mas importante na busca do 70.3, por fatos alheios a minha vontade, ainda que corpo, mente e alma estivessem preparados.

Mais recente, como esquecer o acidente que culminou com uma queda da bike no último simulado antes da viagem para Buenos Aires, um fato que, em maior escala, poderia ter ultimado a minha participação no evento.

Azar? De forma alguma. Todos esses fatos e atos renovaram a minha convicção de que os percalços possuíam um propósito: de me testar, de aumentar a minha resiliência física e emocional, predicado tão importante na lida pessoal e profissional. De me deixar focado no presente, no enredo e na trajetória. Cada vez mais me convenço de que a jornada é tão ou mais importante do que o destino em si!

O Ironman 70.3 de Buenos Aires foi mais uma escala dentro deste propósito de superação. Depois de uma natação boa, dentro do tempo estimado (42 minutos), iniciei o percurso da bike com todo gás e ímpeto, no entanto, pouco mais de 2,5 quilômetros depois, numa rotatória, minha bike saiu de traseira e percebi que o pneu estava murcho. Em todo o período de treino, ao longo de 16 semanas, não tive nenhum pneu furado e, claro, não estava preparado para fazer a substituição como deveria. Depois de 20 minutos eternos, nervoso e apreensivo, com um filme passando pela cabeça, a imagem dos filhos e esposa na linha de chegada que não ocorreria mais, um ilustre “staff desconhecido” parou ao meu lado e me ajudou a reparar o problema. Ele levou mais 6 minutos, entre um bico quebrado e uma bomba que não funcionava direito, mas não importava mais, eu estava novamente na prova. Abracei o cara como se fosse um membro da minha família, agradeci calorosamente e parti.

Foram mais 87,5 quilômetros com medo de um novo furo, mas com a concentração e foco redobrados. Um percurso relativamente plano, numa manhã fria com muito vento frontal e lateral, como nunca antes havia enfrentado. Foram 3h12′ computado o tempo parado. Quando cheguei na transição da bike para a corrida e vi minha família alegre fazendo festa, minhas energias foram renovadas e parti numa corrida forte motivado a cruzar a linha de chegada o quanto antes. Com o tempo parado na bike, fiquei com o povo mais lento na corrida e as seguidas ultrapassagens me davam um ânimo extra para concluir a prova. Fiz a meia maratona em 1h37′, superando a minha mais otimista projeção. Recuperar o foco após o incidente foi a principal vitória, algo como “a esperança venceu o medo”, mas sem alusão a qualquer campanha política…risos. Cruzar a linha de chegada com a bandeira estampando uma foto da minha família foi surreal. Essa bandeira estava o tempo todo escondida na roupa, no meu peito esquerdo e eles não sabiam.

Tudo isso ficará tatuado em meu coração e na minha mente, tatuagem cuja tinta foi composta pela competência do Coach Juliano Pereira, do professor e mestre dos mares Eduardo Klein, do preparador físico Odeir Marques, da nutricionista Cassiana Domingues, do fisioterapeuta Samuel Loureiro, do Joel Barbosa (Joel Bikes) e pelos amigos insubstituíveis da 42K Assessoria Esportiva representados aqui pelo guerreiro Bruno Boni, meu companheiro de treinos e finisher da mesma prova. Todos, se ausentes, teriam deixado a jornada bem mais difícil e sofrível.

Meu sofrimento só não foi maior do que as privações as quais impus à minha família quando optei, à revelia deles, por um desafio dessa magnitude. À minha esposa Juliane e aos meus filhos Felipe e Enzo, cada gota de suor, lágrimas e sangue foi derramada em homenagem à vocês, minha verdadeira razão de viver. Muito obrigado Time Girolla e que venha o Ironman 70.3 Rio de Janeiro.

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