Quebre na hora certa!

Para quem gosta da loucura do triathlon, “pagar” a planilha ao longo das semanas em que se sucedem os treinos é maravilhoso. Você sente que o seu corpo está se desenvolvendo, melhorando, se tornando mais resistente dia após dia. Até parece que você está imbatível. Então, de repente, vem um treino mais puxado e você “quebra”. Uma quebra normalmente é física ou mental. Cuidado, sua mente faz você quebrar! E a sensação que se sucede é de frustração, uma verdadeira ducha de água fria. Entretanto, em determinados momentos a quebra faz bem, obrigado.

Tenho escrito pouco sobre a minha preparação para a prova mais difícil da minha curta vida esportiva, o Ironman 70.3 de Buenos Aires, que acontecerá no dia 12 de março, numa cidade chamada Tigre, próxima à capital portenha. Pois bem, eu não fazia ideia da loucura que é treinar para uma prova dessa magnitude (fico imaginando meus amigos guerreiros que superaram a distância full do Ironman). Não que eu tenha abdicado de tudo, mas confesso que compatibilizar compromissos sociais, trabalho esfuziante e família não é nada fácil em tempos de preparação para a prova-alvo. Às vezes a cabeça rende e o corpo não, às vezes o corpo rende e a cabeça não. Manter esses dois protagonistas em sintonia não é tarefa das mais fáceis.

No meu caso, são 16 semanas de treinos específicos, com volumes e intensidades variando conforme o cardápio estabelecido pelo treinador. Sou franco em assumir a realidade: não consigo efetuar 100% dos treinos, em especial pelos motivos do parágrafo anterior, no entanto, como qualquer aluno de ensino médio ou universidade, me proponho a “performar” ao menos 75% do plano de ação para não pegar exame. Exame, nesse caso, pode ser não concluir a prova ou ainda, concluí-la com um custo físico e psicológico elevadíssimo.

Era 4 de fevereiro e parte da nossa assessoria se alinhou para um simulado de 2K de natação, 60K de bike e 12K de corrida ao final. Bem, a julgar pelo último simulado feito, ainda na metade de dezembro, a completude do mesmo não seria nenhum problema para mim, ledo engano. Nadei dentro do que era possível, mas senti muito no início do pedal. Ao contrário de outras ocasiões, demorei ao menos 10K para soltar as pernas. Ainda assim, nos 50K seguintes, meu pedal foi muito irregular. Uma T2 com direito a banheiro e uma corrida sob o sol fervente das 11:00 me fizeram fraquejar. Foi notável como minha mente trabalhou o tempo todo no percurso da corrida contra a conclusão do simulado. É um monólogo difícil de compreender e de combater. Acabei dando azo a ela. Fechados 6K da corrida, na metade da última etapa, sentei e desisti.

Depois, quando você coloca a cabeça no travesseiro, começa aquela autorreflexão. Você procura os culpados: a semana de trabalho complicada, a noite mal dormida, a alimentação inadequada, a suplementação esquecida ou a hidratação que faltou, enfim, o rol de réus não é pequeno.

No entanto, nada disso pode ser o real motivo da quebra, muitas vezes o excesso de confiança te leva a cometer erros estratégicos, em especial quando você superestima o seu potencial.

Para mim, como isso aconteceu no fechamento da semana 11, serviu para implementar algumas sutis mudanças no meu esquema de treino, em especial no foco e no preparo mental. Ainda tenho mais um simulado pela frente, antes do grande embate. Tenho plena convicção de que respeitarei mais, mas não deixarei que a minha mente me quebre. Ah, no dia 4, após a sessão de autoanálise, me automediquei, corri os 6K faltantes às 19:00, 8 horas após a quebra. Foi uma forma de avisar o meu “eu” interior de que não estou nessa para brincar. Recado dado, corrida pra frente!

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